POR QUE MUITOS FOTÓGRAFOS PREFEREM FOTOGRAFIAS EM PRETO E BRANCO?

 

"Quanto à emoção, eu a encontro no preto e branco: ele transpõe, é uma abstração, não é ´normal´". (CARTIER-BRESSON, 1974). 

 

Imagine-se fotografando um banco vazio de uma praça. Continue imaginando. Pelo LCD da câmera, observe atentamente a imagem que você fez. É bem provável que a imagem seja colorida, porque foi assim que você viu a cena. Agora, pense na mesma imagem fotografada em preto e branco. Na imagem colorida: há céu, grama, chão de pedra, talvez algumas árvores e folhas caídas. Na imagem em preto e branco, por mais que os outros elementos também estejam presentes, o vazio do banco parece ser o único elemento significativo da foto. 

 

É comum as fotografias ganharem outro sentido em preto e branco. Assim, não surpreende que seja uma escolha frequente de muitos fotógrafos. Mas você já refletiu sobre as razões que fundamentam essa escolha?  

 

Há dois pontos principais que explicam a leitura diferente que temos das fotos em preto e branco. A primeira é bem simples: não vemos a realidade em preto e branco.  Nas palavras de HERMAN PODESTA: “Não faço fotos coloridas, porque a cor induz uma referência imediata ao real”. (PODESTA, 1983).

 

O segundo ponto é mais subjetivo e complementa o primeiro.  

 

“Muitos fotógrafos preferem fotografar em preto e branco, porque tais fotografias mostram o verdadeiro significado dos símbolos fotográficos: o universo dos conceitos.” (FLUSSER, Filosofia da Caixa Preta).

 

Quando somos crianças e estamos começando a compreender o mundo, muitos dos nossos aprendizados são construídos a partir da noção de opostos: cheio/vazio, alto/baixo, grande/pequeno… A própria sociedade é construída em torno de questões como certo/errado e bom/ mau. É mais fácil assimilarmos conceitos quando observamos os seus extremos.

 

Branco/preto, claro/escuro, presença/ausência de luz. 

 

Se por um lado a fotografia em preto e branco não representa a nossa forma de ver objetivamente o mundo, ela nos remete a dualidade com a qual o compreendemos em nossa mente. 

 

São muitas as possibilidades que a fotografia em preto e branco proporciona. Uma delas é a interação entre o público e a obra, como evidenciou SEBASTIÃO SALGADO em uma entrevista para o G1:

 

“Qualquer pessoa que olhar vai restituir a cor porque o universo é em cor. A partir desse momento aquela fotografia não é só minha, mas também da pessoa que está vendo”. (SALGADO, 2013).

 

Outro ponto interessante abordado nesta mesma entrevista é o da criação. 

 

“Nada no mundo é em branco e preto. Mas o fato de eu transformar toda essa gama de cores em gamas de cinza me permitiam fazer uma abstração total da cor e me concentrar no ponto de interesse que eu tenho na fotografia. A partir desse momento, eu comecei a ver as coisas realmente em branco e preto”. (SALGADO, 2013).

 

Voltando à pergunta inicial: por que muitos fotógrafos preferem fotografias em preto e branco?  Ao se diferenciar da nossa forma habitual de ver o mundo, a fotografia em preto e branco amplia as possibilidades de leitura da imagem. Ao mesmo tempo, o seu dualismo dialoga diretamente com a nossa forma de construir sentidos, nos remetendo a uma compreensão diferente do que estamos vendo ou criando.

 

 

Escrito por Lili Figueiredo.

Imagem: Henri Cartier-Bresson.

 

 

Referências:

SOULAGES, François. Estética da Fotografia – Perda e Permanência. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2010. p. 79 e 216. 

 

FLUSSER, Vilém. A Fotografia. In: Filosofia da Caixa Preta. São paulo: Annablume, 2011. P. 57-65. 

 

BULCÃO, Luís. Sebastião Salgado explica o planeta em branco e preto que traz ao Rio. G1: 2013. Disponível em: http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2013/05/sebastiao-salgado-explica-o-planeta-em-branco-e-preto-que-traz-ao-rio.html. Acesso em: 05 de agosto de 2020. 

 

 

Postado em: 07/08/2020



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