POR QUE AS FOTOS DE VIVIAN MAIER SÃO TÃO ESPECIAIS?

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Imagina se dedicar uma vida inteira à fotografia e só ter o seu talento reconhecido a partir de rolos de negativos descobertos por acaso. Este conto de fadas fotográfico e com um final feliz duvidoso aconteceu com a fotógrafa VIVIAN MAIER. 
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A história dela evidencia o quanto a fotografia pode exercer um papel fundamental na vida de uma pessoa. O quanto pessoas aparentemente comuns podem ocultar um imenso talento. MAIER passou uma vida solitária, trabalhando como babá para diferentes famílias. Reservada, misteriosa, um tanto excêntrica. É provável que tenha trabalhado como babá por suprir as suas necessidades básicas de alimentação, um lugar para morar e, de certa forma, possibilitar que ela fotografasse muito durante os seus passeios com as crianças ou quando elas estavam em suas escolas.  
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 Em 2007, JOHN MALOOF,  escritor e fotógrafo de rua, adquiriu uma caixa com 30 mil negativos em um leilão. Ele buscava fotos para compor um livro que estava escrevendo. As fotos não serviram ao propósito inicial, mas foi uma descoberta muito maior do que ele poderia sonhar. Em uma matéria do G1, consta a seguinte declaração dele:  
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 "Encontrei uma caixa com muitos negativos, olhei algumas imagens, mas nada servia para o livro e deixei no armário. Meses depois, eu comecei a escanear as fotos. Aí percebi que elas eram muito melhores do que eu imaginava. Publiquei algumas em um site de fotos que, em horas, se tornou viral"
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Mas por que as fotos de VIVIAN MAIER são tão especiais? Encontramos outras vozes para refletirmos juntos sobre esta questão. 
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No livro VIVIAN MAIER — UMA FOTÓGRAFA DE RUA, GEOFF DYER apresenta pontuações bem interessantes:
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“Após o inevitável alarde feito para atrair a atenção que uma descoberta como esta merece, não é necessario exagerar o valor da obra a fim de conferir a ela a qualidade de um milagre. Maier é um complemento importante para o cânone da fotografia de rua: algumas das suas imagens são extraordinárias. Mas, mesmo deixando de lado a questão da qualidade  — e da quantidade de qualidade —, o atraso da descoberta significa que o trabalho de Maier não desempenhou seu papel na formação da nossa maneira de ver o mundo, ao contrário de Arbus (mesmo que, por vezes, Maier pareça ter abordado temas arbusianos antes mesmo de Arbus).”
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Neste trecho, e a partir dele, temos diversos elementos que explicam a fascinação que a obra de VIVIAN MAIER exerce. A descoberta tardia das suas fotografias; a forma como a descoberta aconteceu; a quantidade de imagens feitas por ela; a quantidade de imagens boas feitas por ela; a existência de um plural de imagens extraordinárias feitas por ela. E, ainda que GEOFF DYER esclareça que a descoberta tardia fez com que ela não trouxesse nenhuma contribuição nova para a nossa forma de ver o mundo, nas entrelinhas também está claro que a sua obra tinha este potencial, além de ter qualidade o suficiente para a sua autora estar hoje entre as grandes referências da fotografia de rua. 
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Em outro trecho, GEOFF DYER menciona: 
 
“Um aspecto do conteúdo de Maier existe na reveladora relação entre seu estilo e sua situação social. Muitos de seus retratos femininos apresentam mulheres espremidas historicamente — suas roupas são a expressão disso — entre os papeis estritamente confinantes dos anos 1950 e as liberdades frustradas da década de 1960 e além. 
(…)
Há uma inevitável pungência em como Maier era atraída por senhoras de idade, que servem como representações proféticas de seu próprio destino: solitária, de aparência excêntrica, embrulhada em sobretudos, abrigando o segredo de uma vida inteira, intuído pela dádiva do escrutínio momentâneo da câmera.”
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Há registros de diferentes décadas no acervo descoberto de VIVIAN MAIER. São cenários, personagens e tempos diferentes. Crônicas visuais de momentos distantes de nós. De pessoas e lugares que não existem mais como se apresentam em suas fotografias. Assim, é natural que despertem em nós um encantamento.
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“Quando William Klein fotografa ‘Primeiro de Maio em Moscou’, ensina-me como se vestem os russos (o que, no fim das contas, não sei): noto o grosso boné de um garoto, a gravata do outro, o pano da cabeça da velha, o corte de cabelo de um adolescente, etc.”
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Este trecho pertence ao livro CÂMARA CLARA. Depois deste exemplo, ROLAND BARTHES menciona que fotografias que apresentam pequenos saberes poderiam lhe causar um certo fetichismo.  Partindo de BARTHES, podemos concluir que há diversos pequenos saberes presentes nas fotografias de VIVIAN MAIER. Sendo assim, compreendemos melhor mais uma das razões que as tornam tão especiais.  
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Mas além dos aspectos técnicos, históricos e de costumes, há um elemento mencionado por GEOFF DYER que realmente faz toda a diferença: a própria VIVIAN MAIER. A personalidade dela está presente em seus registros, em cada escolha feita até chegar na imagem que vemos agora. Por este motivo, também nos instiga tanto saber quem foi VIVIAN MAIER. Porque vemos uma parte dela em sua obra e queremos compreeender ainda mais o que estamos vendo. 
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Encontramos no livro SOBRE FOTOGRAFIA uma citação de RICHARD AVEDON que descreve bem esta conexão entre o fotógrafo e as suas imagens: 
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"E as fotos têm, para mim, uma realidade que as pessoas não têm. É por meio das fotos que eu as conheço. Talvez isso pertença à natureza do fotógrafo. Nunca estou de fato envolvido. Não preciso ter nenhum conhecimento real. É tudo uma questão de reconhecimentos." 
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No documentário FINDING VIVIAN MAIER, em português, A FOTOGRAFIA OCULTA DE VIVIAN MAIER, JOHN MALOOF busca entender quem foi a mulher que ele só conheceu através das fotografias. Um enigma impossível de ser completamente desvendado. Mas Independente da resposta, fica o conforto de sabermos que as suas fotografias não se perderam. Que todo o imenso valor que elas possuem foi preservado e compartilhado com o mundo.  
 
Fotos: VIVIAN MAIER
Texto: LILI FIGUEIREDO
 
Fontes: 
 
<http://g1.globo.com/jornal-da-globo/noticia/2014/07/artista-que-registrou-fotos-historicas-dos-eua-morreu-sem-ser-reconhecida.html>
 
< https://revistazum.com.br/colunistas/o-enigma-vivian-maier/>
 
SONTAG, Susan. Sobre Fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.
 
BARTHES, Roland. A câmara clara. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
 
DYER, Geoff e MALOOF, John. Vivian Maier: Uma fotógrafa de rua. Autêntica, 2013.  
 
Finding Vivian Maier/A Fotografia Oculta de Vivian Maier. Direção: John Maloof, Charlie Siskel. EUA, 2013.
 
 
 
        

Postado em: 26/06/2020



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