LEITURAS FOTOGRÁFICAS

 

O FOTÓGRAFO DE MAUTHAUSEN é um filme baseado em fatos reais que conta a história de um fotógrafo espanhol em um campo de concentração nazista. Não é um filme que recomendamos assistir neste momento. Filmes sobre segunda guerra sempre são emocionalmente difíceis. Mas vale a dica para ser assistido em um futuro mais ameno.

 

Como prisioneiro, FRANCESC BOIX encontrou na fotografia uma forma de sobreviver naquele campo de concentração. Sua função era auxiliar um fotógrafo mais experiente, militar, que tratava os registros fotográficos dos absurdos ali cometidos com o preciosismo de um diretor de arte.

 

Percebendo que as fotografias serão destruídas com a gradativa queda das forças nazistas, o prisioneiro espanhol tenta a todo custo salvar os negativos que comprovam a crueldade dos crimes cometidos.

 

Além de mostrar um recorte da SEGUNDA GUERRA MUNDIAL do ponto de vista de um fotógrafo,  de uma forma indireta, o filme traz muitas reflexões sobre o ato de fotografar.

 

Como fotógrafo, a natureza do trabalho do protagonista o colocou em uma posição que lhe permitiu testemunhar tudo o que acontecia, mas sem o poder de interferir no presente. Se tentasse se rebelar, seria morto. Mas preservar os negativos era uma forma de poder interferir no futuro, responsabilizar os algozes. Em períodos difíceis, mesmo que não altere a realidade do momento, documentar é necessário.

 

Outro ponto é sobre ética na fotografia. É muito delicado retratar o sofrimento alheio. No filme, o superior do protagonista é movido, principalmente, por um prazer estético. A composição da cena importa mais do que os seres humanos que a formam. As pessoas retratadas são como parte de uma pintura em desenvolvimento para ele. Já o protagonista não fotografa por prazer, mas vê naquelas imagens já feitas uma forma de fazer justiça, de mostrar ao mundo uma realidade vivenciada por um grupo de pessoas. Saindo deste contexto extremo, há muitas nuances éticas envolvidas no trabalho de um fotojornalista. Nem sempre há uma linha divisória clara entre o que difere registros necessários para documentar um momento histórico, e evitar que ele se repita, de fotografias que expõe o sofrimento de indivíduos, desrepeitando-os de alguma forma.

 

Em A MENINA DA FOTO: A HISTÓRIA POR TRÁS DE UM SÍMBOLO DA GUERRA DO VIETNÃ, matéria publicada por JULIA BRAUN em setembro de 2018, fica evidente o quanto é delicada esta questão. A imagem que rendeu o prêmio PULITZER ao fotógrafo NICK UT foi extremamente problemática para KIM PHUC PHAN THI, a mulher fotografada quando menina correndo nua em desespero após ter sido atingida por uma bomba química.

 

Apesar de ter uma boa relação com o fotógrafo, chamando-o até hoje de “tio UT”,  e dele ter contribuído para salvar a sua vida, pois levou crianças feridas em sua van até o hospital mais próximo, a foto a assombrou durante muito tempo.

 

Algumas frases de KIM em relação à foto que constam na publicação citada:

 

Só conseguia pensar que estava feia, não entendia porque o fotógrafo havia tirado aquela foto quando eu estava pelada, com o rosto tão feio.”

 

“Meu sonho, quando cheguei ao Canadá, era escapar daquela foto. Eu queria ser normal, voltar a estudar, ter um emprego.”

 

“Quando criança, eu desejava que aquela foto nunca tivesse sido tirada. Até que eu me tornei mãe e segurei meu filho em meus braços pela primeira vez.”

 

“Quando meu primeiro filho nasceu, aquela foto me desafiou e se tornou um presente.”

 

A imagem fez dela um símbolo, sem que ela tivesse escolhido ser. A imagem acentuou a dor que sentia ao não permitir que ela pudesse se desconectar da situação traumática que vivenciou. KIM era sempre lembrada e associada aquele momento. No entanto, ao ter um filho, ela percebeu o outro lado daquela situação. O quanto aquela foto era necessária para conscientizar pessoas sobre o que é, de fato, uma guerra. Que aquela foto poderia contribuir para que outras crianças não sofressem o que ela sofreu.Assim, ela ressignificou aquela foto internamente.

 

“Hoje, Kim é embaixadora da boa vontade da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) e comanda sua própria organização não-governamental para o auxílio a crianças atingidas pela guerra.”

 

Se a história de KIM nos mostra como uma mesma imagem pode ser lida de formas diferentes pelo indivíduo retratado a partir da passagem do tempo e de novas experiências adquiridas, a história do filme nos mostra como uma mesma imagem pode ter significados diferentes de acordo com a intenção de uso dos indivíduos.

 

O FOTÓGRAFO DE MAUTHAUSEN é um filme espanhol lançado em 2018, dirigido por MAR TARGARONA.  Ele foi indicado a diversos prêmios e está disponível na plataforma streaming NETFLIX.

 

KIM PHUC PHAN THI escreveu uma biografia chamada A MENINA DA FOTO —  MINHAS MEMÓRIAS: DO HORROR DA GUERRA AO CAMINHO DA PAZ, lançada no BRASIL em 2018 pela editora MUNDO CRISTÃO.

 

Para ler a matéria A MENINA DA FOTO: A HISTÓRIA POR TRÁS DE UM SÍMBOLO DA GUERRA DO VIETNÃ completa, acesse: https://bit.ly/2LbEgPN

 

Postado em: 09/05/2020



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