FOTOGRAFIA E LITERATURA

 

“Foi a literatura que frequentemente me fez compreender as imagens que eu deveria fazer.” FRANÇOIS  HERS

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 A partir do capítulo A COCRIAÇÃO presente no livro ESTÉTICA DA FOTOGRAFIA — PERDA E PERMANÊNCIA de FRANÇOIS SOULAGES selecionamos algumas questões interessantes relacionadas à fotografia e à literatura.

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Um ponto essencial as aproxima: suas matérias-primas fazem parte do processo de construção do sentido. O processo de linguagem é baseado em uma relação de correspondência entre palavras e imagens que se formam em nossa mente.

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As imagens podem ser consideradas mais universais do que as palavras, uma vez que a partir de uma imagem, um objeto pode ser compreendido por pessoas que falam idiomas diferentes. No entanto, o mesmo objeto expresso por uma palavra só será identificado por quem compreende o idioma ao qual a palavra pertence.

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Durante muito tempo, a fotografia foi duramente criticada por artistas que se expressavam através de outras manifestações artísticas. Inclusive, muitos escritores viam a fotografia como uma forma de reprodução, não de arte.

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Ser mais técnica, apresentar resultados objetivos e necessitar de uma uma máquina para a sua realização foram algumas das características citadas como motivos para que ela fosse considerada uma arte menor, sem alma e sem poesia.

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Outro ponto que alimentava o preconceito citado está relacionado ao tempo de existência de cada uma. A literatura é uma forma de expressão muita mais antiga do que a fotografia. Assim, entre os escritores havia muita desconfiança em relação a uma nova forma de linguagem e o receio de serem engolidos pelo novo. 

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Com o tempo, ficou mais evidente a percepção de que o ato de fotografar era apenas uma pequena parte do processo de criação.  Logo, um lápis, uma máquina de escrever ou uma câmera fotográfica, os instrumentos utilizados, não poderiam ser fatores decisivos para identificar o que seria considerado arte ou não. Ficou notório também que a fotografia ganhava diferentes sentidos ao descolar-se do momento em que a imagem foi registrada, o que a enriquecia artisticamente.

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COCRIAÇÃO

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“A máquina fotográfica, para mim, é uma maneira de escrever. O processo mental é o mesmo: acumulam-se durante vinte anos uma cultura, um saber, uma sensibilidade, e depois de tudo vem na escrita em um segundo. É a mesma coisa com a fotografia.” BERNARD PLOSSU

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 FRANÇOIS SOULAGES cita três formas de cocriação unindo fotografia e literatura. A primeira é quando um artista que não é um fotógrafo, nem um escritor, une fotografias e textos que não foram criados com o intuito de pertencerem a um mesmo projeto.

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A segunda seria um escritor escrever a partir de fotografias ou um fotógrafo fazer fotos a partir de textos. Nesta forma de interação, o autor observa que, frequentemente, ocorre apenas a inspiração temática e não a união plena das duas manifestações artísticas.

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A terceira forma seria quando dois artistas criam juntos um mesmo projeto. Mas há muitos obstáculos a serem vencidos para a concretização desta parceria. Além de um consenso em relação à ideia central do projeto, cada artista precisa mergulhar em sua área e estar aberto para a realização da atividade do outro.  Só assim, segundo SOULAGES,  os dois seriam capazes de criar juntos uma obra sem fronteiras definidas entre fotografia e literatura.

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O resultado desta cocriação, em geral, se apresenta ou como um texto relacionado a uma foto; em forma de uma exposição de fotos e textos ou em um livro que acolhe o projeto.

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 É em forma de livro que as fronteiras entre literatura e fotografia melhor se confundem. Entre os motivos, podemos citar a possibilidade de contemplar, folhear, mesclar de uma forma orgânica a leitura de imagens e de palavras. 

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“Esse espaço de criação que é o livro supõe muitas vezes uma abordagem poética da fotografia e permite-nos compreender melhor por que uma foto se situa na esfera de uma lógica próxima da da poesia.” FRANÇOIS SOULAGES

Postado em: 23/05/2020



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